O conceito bíblico de casamento consiste na ordenança sagrada “deixará o homem pai e mãe para unir-se à sua mulher e tornar-se uma só carne” (Gn 2.24). A expressão “uma só carne” é a base fundacional do conceito bíblico de casamento. Implica na unidade total do homem e da mulher concretizada na relação sexual, isto é, na comunhão integral entre o homem e a mulher consumada pela entrega sexual.
O vocábulo “carne” é a transliteração do hebraico basar ou se’er. Descreve a parte externa da natureza humana. Trata do aspecto visível da condição humana. Embora seja freqüentemente empregada pelos escritores veterotestamentários para designar o invólucro do corpo, ela não é um mero sinônimo de revestimento físico. Pelo contrário, o termo “carne” também pode ser utilizado para circunscrever o domínio psíquico da existência humana. Ele também indica as capacidades psíquicas do homem.
Desse modo, a palavra “carne” pode ser usada como referência à totalidade do ser. Ela seria a combinação unitária das esferas físicas e psíquicas. Em outras palavras, a “carne” seria usada para designar a conjugação holística entre corpo e espírito. Sendo assim, a expressão “uma só carne” representa a fusão de dois corpos em um só espírito. A partir do ato sexual, o homem torna-se extensão da mulher e a mulher tornar-se extensão do homem. A ligação íntima entre os dois constitui uma “personalidade corporativa”.
Com efeito, o casamento sob o prisma bíblico é a comunhão interior e exterior entre o homem e a mulher através da entrega sexual. Esta unidade físico-psíquica entre o homem e a mulher só ocorre na medida em que os dois tornam-se “uma só carne”. Logo, o casamento segundo a perspectiva bíblica aponta para a relação conjugal entre o homem e a mulher que formam um todo indissolúvel e indecomponível; para a síntese indivisível entre sexos opostos decorrente do exercício sexual que une homem e mulher em “uma só carne”.
Rafael Divino
Teólogo






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